A turbulenta vida de Sinead O’ Connor

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A verdade é que nunca sabemos o que se passa na vida de cada artista que gostamos ou admiramos.

Diante de tantas matérias escritas sobre a vida e carreira de Sinead, percebe-se uma criança triste e ferida no corpo de uma adulta cheia de problemas mal resolvidos.

Sabemos que uma infância triste, transforma- se em um adulto com problemas e que sua vida pode estar condenada por não curar o que feriu na infância.

 

 

Sinead O’Connor iniciou sua carreira na música em 1987, com o álbum “The Lion and the Cobra”, dedicado à mãe que havia falecido recentemente. Ganhou grande visibilidade se apresentado em diversos países da Europa e nos Estados Unidos.

Sua voz doce e ao mesmo tempo rebelde, com a cabeça raspada, foram sua marca registada por muitos anos.

Sinead, que revelou ter sofrido abusos na infância, revelou também ter sofrido abusos nos anos 90 após estourar o single “Nothing Compares 2 U”. Prince, autor do single, teria agredido a artista após ela tornar a versão um hit conhecido mundialmente. Ela conta em uma entrevista que Prince a agrediu e perseguiu.

“Nós nos encontramos uma vez, não nos demos muito bem e nós tentamos nos agredir. Na verdade, ele tentava me bater e eu tentava me defender, foi uma experiência assustadora”, disse a cantora em 2019 em uma participação no programa “Good Morning Britain”.

Dois anos depois chegou “Am I Not Your Girl?”, onde a cantora interpretou algumas músicas de sucesso como “Don’t Cry For Me, Argentina” e “Gloomy Sunday”.

 

 

Nessa altura, foi novamente notícia internacional, mas desta vez, por rasgar uma fotografia do Papa João Paulo II em protesto aos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica, num dos programas com mais audiência dos EUA, o Saturday Night Live. Numa das muitas entrevistas sobre essa ação, Sinead conta:

“Muitas pessoas não entenderam o protesto. Eu sabia que a minha ação poderia causar problemas, mas queria forçar uma conversa onde houve a necessidade de uma […] Tudo o que eu lamentava era que as pessoas pensassem que eu não acreditava em Deus. Isso não é verdade. Sou católica de nascimento e seria a primeira à porta da igreja se o Vaticano oferecesse reconciliação sincera”.

A atitude foi reprovada por diversas autoridades e Sinead ficou com uma imagem negativa em muitas cidades, chegando até a ser vaiada num show em tributo a Bob Dylan. Sinead ficou com medo da atitude das pessoas e chegou até a doar a sua casa de 800 mil dólares para a Cruz Vermelha.

Em 1994 ela lançou o álbum “Universal Mother”, que incluía a faixa “Fire On Babylon” que acaba por ser o grande destaque uma vez que fala de abuso sexual infantil.

Talvez não seja tão difícil compreender as atitudes e consequências de Sinead, diante de fatos como estes.

Em 2015 a artista publicou em seu perfil no Facebook em que sugeria que havia tentado se matar. “Tomei uma overdose”, escreveu Sinead.

Ela revela no texto a dor por não ter nenhuma relação com sua família em consequência de uma “horrível série de traições”, além de reclamar que filho mais velho e outros membros da família estariam a tratando muito mal.

A artista é mãe de 4 filhos, e foi casada quatro vezes, sendo o seu primeiro marido o produtor musical e baterista John Reynolds.

Ainda no texto publicado em sua rede social ela diz: “Não há outra maneira para conseguir respeito. Não estou em casa, estou em um hotel, em algum lugar da Irlanda, com outro nome”, dizia o post. “Se não publicasse esta mensagem, meus filhos e minha família nem sequer descobririam. Eu poderia estar morta há semanas e eles não saberiam”.

Ainda sobre a vida cheia de transtornos, isolamento e falta de saúde mental, em 2017, a cantora falou abertamente sobre os transtornos mentais e a distância da família. Em um vídeo de 12 minutos publicado no Facebook, ela dizia estar vivendo em um motel de beira de estrada em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

“Estou completamente sozinha. Não há ninguém na minha vida além do meu médico, meu psiquiatra, o homem mais doce do mundo, que diz que eu sou sua heroína, e essa é a única coisa que me mantém viva no momento. E isso é meio patético”.

Depois disso, ela foi chamada para uma entrevista no programa “Dr. Phill”, onde declarou que já estava cansada de ser chamada de louca e conhecida como sobrevivente de abuso infantil.

Mas, voltando nos anos 90, engajada politicamente, Sinead grava “Gospel Oak”, contendo seis músicas dedicadas ao povo do Ruanda, de Israel e aos próprios irlandeses.

Vale ressaltar que a cantora anunciou que se converteu a Igreja Tridente Latino, da Irlanda, e passa a dedicar grande parte de sua vida à religião. Em outubro de 2018 Sinead O’Connor se converteu ao islamismo e mudou seu nome para Shuhada’ Davitt. Até então, a cantora era católica. (Lembram do programa “Dr. Phill” citado acima? Foi neste mesmo programa que ela anunciou que mudaria de nome, o que de fato ocorreu, “Vou trocar meu nome. Sinead O’Connor já era. Essa pessoa se foi”.)

Em sua conta no Twitter, Sinead escreveu: “Isso é para anunciar que estou orgulhosa de ter me tornado muçulmana. Essa é a conclusão natural da jornada de qualquer inteligente teólogo”. E completou, “Todo o estudo de escrituras leva ao islamismo. O que faz das outras escrituras redundantes. Eu terei um novo nome que será Shuhada”, anunciou. Meses antes, ela chegou a se lançar com um novo nome artístico, Magda Arjuna Davitt, mas continuou usando Sinead O’Connor para sua carreira musical.

 

 

Mas, os altos e baixos na vida pessoal e na carreira de Sinead continuam e ela anunciou que iria deixar os palcos e o show business para cuidar mais do seu espírito e da sua família, algo que ela já havia anunciado outras vezes, mas não cumpriu.

Em junho de 2021, logo após lançar seu livro de memórias, a cantora anunciou novamente que estava se aposentando dos palcos e das gravações, dizendo: “Estou ficando mais velha e cansada. Está na hora de pendurar meus pompons de mamilo depois de realmente ter dado tudo de mim”.

Um dia depois, ela voltou atrás. “Boas notícias. F*da-se a aposentadoria. Retiro o que eu disse. Não estou me aposentando. Eu estava temporariamente permitindo que f*dessem a minha cabeça”, disse Sinead.

Tantos sinais e ninguém por perto? Ou ela não aceitava a ajuda?

O ano da morte de Prince,2016, autor de seu maior hit, foi bastante conturbado para Sinead O’Connor. Ela chegou a ficar desaparecida por 24 horas depois de sair pedalando de sua casa na região metropolitana de Chicago, nos Estados Unidos. Um amigo da cantora acionou a polícia, que chegou a classificar o caso da cantora como a de uma “suicida desaparecida”, mas sem dar mais detalhes.

No ano anterior, em 2015, Sinead O’Connor chegou a cancelar sua turnê mundial alegando estafa. Ela cancelou, inclusive, shows que faria no Brasil após uma internação de Shane, na época com 11 anos.

Sim, Shane, que foi encontrado morto no dia 08 de Janeiro, já dava sinais de transtornos mentais, por coincidência ou não, como sua mãe, aos 11 anos.

Em algumas publicações sobre a morte do filho, ela diz: “Todos nós erramos com ele”.

 

 

Tratar traumas de infância é algo muito sério, e devemos nos atentar a isso. Muitos relatos feitos pela cantora mostravam esses traumas não resolvidos.

A irlandesa explicou em uma longa carta que foi vítima de diversas entrevistas abusivas durante toda a sua carreira, as quais desrespeitavam seus pedidos para não falar sobre seus traumas e as violências que sofreu quando criança.

“Quando as pessoas me ridicularizam, me invalidam, me desrespeitam ou me abusam eu sofro de efeitos de longo prazo das violências físicas e psicológicas com as quais eu cresci”. “Toda vez que eu vou vender uma música, um show ou um livro, é um gatilho para mim. Eu volto para essa criança ferida. Ou essa jovem mulher tratada terrivelmente. E o meu trabalho se torna algo que me aterroriza”, escreveu Sinead em sua carta.

Essa matéria, não é apenas para falar sobre a vida de Sinead O’Connor, mas sim, para servir de exemplo para todos nós. É o olhar atento para os detalhes e sinais que as pessoas nos dão ao longo da vida.

É também sobre empatia, sobre olhar com outros olhos os acontecimentos. É sobre também se enxergar. É um apelo, se cuidem e cuidem dos seus.

Um outro exemplo de um trauma mal resolvido, é a cantora Amy Winehouse. Amy pedia socorro a todo tempo, e todo seu esforço foi ignorado.

Vivemos diante de uma sociedade que não consegue enxergar a essência humana e que lamenta a morte, quando poderia ter tentando salvar.

Por fim, precisamos evoluir como seres humanos.

 

Texto: Luciana Scudelari

Fontes: Google

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